sexta-feira, 23 de maio de 2014

FRAGMENTOS DE UM CONTO - CONSEQUÊNCIAS

Ele naquela tarde acordou do preguiçoso cochilo pós-almoço, pronto (nem tanto...) para mais uma sequência de aulas.
Atrasado.
Pensou que se houvesse colocado o relógio para despertar teria mais tempo para se arrumar naquela tarde chuvosa...
"Anta!" - sussurou para si mesmo enquanto penteava o cabelo ao mesmo tempo em que procurava o guarda-chuva e sua botina. Tudo feito, lançou-se ao tempo frio e úmido - um charme da capital paulista que o fascinava, fazendo-o recordar das tardes parecidas que tinha com sua mãe, enquanto ela passava roupa, culminando num lanche de pão com manteiga e café com leite, com participações especiais e ocasionais de biscoitos água-e-sal.

Assim o levou o dia. Findadas todas as tarefas, voltando para o conforto do lar pensou que cada coisa que se faça sempre levará a uma consequência - seja ela grande ou pequena. Tipo assim, ao passar o pé esquerdo à frente o direito ficará para trás. Normal. Mas o que o instigou são as até certo ponto incontroláveis consequências dos atos. Lembrou do ótimo filme "O Estranho Caso de Bejamin Button" onde Benjamin pensa numa cadeia de acontecimentos que levam sua amada a sofrer um atropelamento que dá fim à sua carreira de bailarina.

Consequências.

Parou. A poucos passos de casa parou, e quis parar de pensar neste caos de consequências. E parado gostaria de chegar a uma boa conclusão, não de fato conclusiva mas que desse sentido a toda divagação do dia. Achou um bom ponto:

Ele dava aulas, era professor. Não era apenas isso, mas as aulas eram a principal fonte de renda. Pensou no quanto ganhava com isso e que poderia ganhar mais, mas não ganhava - porém era feliz, e sentia alegria em lecionar.

Consequências.

Impossível é domar o leque de desdobramentos de cada ato. Temos que lidar com as consequências a cada instante. E se as consequências dos atos forem em última análise ser feliz ou fazer alguém feliz, cada pequeno ato, cada renúncia, cada dificuldade... sempre valerão a pena!

Afinal, o sentido da vida é a felicidade.

Dormiu satisfeito, como há muito não dormia.