quarta-feira, 23 de abril de 2014

FRAGMENTOS DE UM CONTO - SAUDADES

"Mas é claro!" - pensava, "é uma das coisas que resta fazer neste momento! As outras não tenho tanta certeza..."
Dizia isso enquanto varria aqueles farelos de pão que aparava na barriga até que aquele vira-latas parceiro pulasse em seu colo para ganhar festinha, e os espalhasse pelo chão da sala.

Tarefa feita, sacou o que acontecia ao seu redor: aparelho de som mal sintonizado na casa do vizinho, a cortina dançando com aquele ventinho frio da tarde de um outono paulistano. O frio que, embora estivesse protegido em casa, o assaltava até os ossos pela simples lembrança.

E lembrava... franzia a testa e encarava o teto. O estômago digeria o lanche como se dançasse lambada pela ânsia que o tomara há horas.

Fumaria um cigarro? "Por quê não?"
Beberia um uísque? "Por quê não?"

Nada fazia sentido, e nada parecia ser incabido. Onde estava sua cabeça?

Ele riu alto, como quem escuta a melhor piada sarcástica, de si próprio e se levantou sem rumo.

Andaria sem rumo esta noite.

"Por quê não?"

E se foi.

Pois nesta noite ele não a veria.