domingo, 27 de abril de 2014

PENSANDO SOBRE OS CICLOS DA VIDA

Sempre há um ciclo. É a vida. Um se fecha e outro se abre. As situações mudam, mudam as circunstâncias, e com essas mudanças trocam-se os círculos pessoais também. Enfim, a vida muda. Isso é o dinamismo sob o qual existimos. E há elos que ligam cada ciclo; afinal, podemos perceber que, via de regra, as mudanças de ciclo dificilmente são bruscas e violentas, e sim tendem a serem precedidas de certo preparo. Sim, são planos que começam a dar certo ou projetos ruindo que vejo anteceder o início de um novo ciclo.

E o que essas mudanças trazem? Há a necessidade de largar certas regras, confortos e amores para que o novo não chegue e sim aconteça. É isso que as mudanças trazem,  e embora pareça óbvio é bom ressaltar que as mudanças trazem o novo!

Viver agarrado então é nocivo, penso eu, a não ser que aquilo a que se está agarrado seja um esteio, uma coluna-mestra, aquilo ou alguém que nos define de alguma forma, que seja realmente algo intangível...

Então viver não é apenas mudança de ciclo: é também a descoberta de quem e como somos. É apostar e perder até aprender a ganhar. É ver as vitórias mais significativas chegarem acompanhadas de marcas de expressão.

É muita coisa para apenas uma vida...

Mas não é apenas uma vida, e sim muitas vidas numa existência.

...

quarta-feira, 23 de abril de 2014

FRAGMENTOS DE UM CONTO - SAUDADES

"Mas é claro!" - pensava, "é uma das coisas que resta fazer neste momento! As outras não tenho tanta certeza..."
Dizia isso enquanto varria aqueles farelos de pão que aparava na barriga até que aquele vira-latas parceiro pulasse em seu colo para ganhar festinha, e os espalhasse pelo chão da sala.

Tarefa feita, sacou o que acontecia ao seu redor: aparelho de som mal sintonizado na casa do vizinho, a cortina dançando com aquele ventinho frio da tarde de um outono paulistano. O frio que, embora estivesse protegido em casa, o assaltava até os ossos pela simples lembrança.

E lembrava... franzia a testa e encarava o teto. O estômago digeria o lanche como se dançasse lambada pela ânsia que o tomara há horas.

Fumaria um cigarro? "Por quê não?"
Beberia um uísque? "Por quê não?"

Nada fazia sentido, e nada parecia ser incabido. Onde estava sua cabeça?

Ele riu alto, como quem escuta a melhor piada sarcástica, de si próprio e se levantou sem rumo.

Andaria sem rumo esta noite.

"Por quê não?"

E se foi.

Pois nesta noite ele não a veria.

terça-feira, 22 de abril de 2014

LEITORES E ELEITORES - por Mauro Nogueira

Renovação verdadeira na política só vai acontecer quando todos os candidatos de um mesmo pleito nunca tiverem "pedido a cabeça" de jornalistas que os denunciaram, porque a relação entre políticos e jornalistas é um dos termômetros de uma democracia saudável.

Em regimes totalitários, não há liberdade de imprensa. Em democracias corrompidas, a liberdade de imprensa é corroída pelos conluios entre políticos e jornalistas. Se um político tem influência para deixar o jornalista desempregado porque o denunciou, por outro lado o jornal faz denuncias contra outros políticos que são inimigos dos seus políticos aliados, e esse jogo perverso só acaba quando todos pararem de praticá-lo.

Para tanto, é preciso que o leitor deixe de acreditar nos jornais. No Brasil, atualmente o leitor tende a acreditar na notícia de jornal à medida que nutre empatia e identificação ideológica pelo político, relegando a apuração e a evidência dos fatos ao segundo plano. E o jornal tira proveito desse critério irracional, e na maioria das vezes inadvertido, alegando uma imparcialidade que visa deliberadamente despistar o leitor.

Quem é idôneo não teme críticas, porém é fato que falsas denúncias têm tido peso decisivo nas eleições do Brasil pós-ditadura, pois até provar a inocência do candidato, as eleições passaram.

Quem sabe isso aconteça nas eleições presidenciais de 2018? Nas de 2014 alguns dos pré-candidatos têm jornalistas ora como aliados, ora como inimigos; depende do interesse.

Mas fato é que maus leitores são maus eleitores e bons leitores são bons eleitores.
Ah, é bom lembrar, não estou me referindo a quem não tem acesso às informações.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

NUM DIA NUBLADO

Tudo o que quero para hoje é um canto,
Onde possa ler um conto,
Entoar meu canto,
E contar os amigos com os quais conto.

Um canto que caiba no conto,
Que se completa quando conto,
Que inspire o sossego dum canto confortável;
É com isso que hoje conto.

Alternar o vento gélido com a monótona sala,
Arrepiando a pele e voltando ao conforto,
Buscando o abraço do canto que me anima a cantar a guarânia triste do conto de um cantante,
Que só queria um abraço...

Se o que quero pra hoje é esse doce encanto que me persegue desde ontem;
Se encontrar o abraço do canto ou da musa do conto se torna minha obsessão;
Se o gélido vento é a inspiração pra busca do calor,
Tudo o que quero é que isso tudo se torne meu canto,
E inspiração para algum conto,
E companhia pro canto.

terça-feira, 15 de abril de 2014

FRAGMENTOS DE UM CONTO - Poesia Encomendada

"...E assim ela chegou, adentrou e flertou. Sem muitos dedos, simplesmente olhou e pediu uma poesia.
Acendeu um cigarro, me fitou e baforou. Queria uma poesia.
Eu me esforcei em ler seu olhar, busquei e como lhe enxergar...
Nada!
Me sentia cego naquele instante, pois nada via em seus olhos além do pedido de uma poesia.
Logo eu que não me ajeito com os verbetes em versos e rimas tinha o pedido de uma poesia para atender.
Seu aparente vazio me contagiou. A noite passou e clareou, troquei os passos, maquiei o desbunde e num acesso escrevi.
Ela quis uma poesia. Pois que encontre aqui."

quarta-feira, 9 de abril de 2014

AMANHECER

Como é bom amanhecer
Deixar que o dia tome seu rumo
Não lutar contra a rotação
Apenas ser o que se almeja ser.

Como é bom que se entenda
Que as marés retrocedem
Que os ventos mudam
E que a dinâmica é cuidadosamente planejada.

É bom demais lançar os olhos além
E enxergar nosso lugar na imensidão
É divino saber que cada ato constrói o que somos
E que ninguém pode ocupar a forma que adquirimos.

Em tudo isso somos ensinados
Não há o que haja sem ser
O bom de tudo o que vemos, vivemos, sentimos e provamos
É que de outra forma, jeito, circunstância ou modo
Poderá novamente ser vivido.
Basta se deixar entardecer...
Basta saber anoitecer...
E ter alma para o amanhecer.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O TEMPO

O tempo é curto, sempre curto
Nada pode torná-lo mais extenso
Nenhuma medida parece ser eficaz para domá-lo
Nada do que façamos o domina
Apenas aceitar e buscar conviver
Apenas ver e buscar entender
Se o vemos passar, por qual ótica o vemos?
Seria de uma prisão, seja lá qual for?
Independente de qual grilhão nos prenda?
Ou uma ótica livre, solta?
Tenho o visto passar por mim
E passar sem se despedir, ou ao menos anunciar chegada
Vem, me desperta, e logo evapora
Em alguns dias ele até volta
Sem ser anunciado
Num desses dias me suga e exaure
Noutros me plenifica e transborda
O tempo age conforme me encontre
Por isso, da próxima vez que eu o encontrar
Quero estar respirando fundo
Com total fôlego
E quando ele passar
E almejar voltar
O terei visto do alto de minhas faculdades e atribuições
Terei feito muito, terei me tornado muito
Serei essencialmente eu
Mas substancialmente outro maior, melhor
Mais cheiroso, mais intrépido
Beijarei sua face e direi: "meu amigo, até breve!"
E assim até ele se apresentar cada dia mais curto
Até eu não caber mais em seus braços
E quando seu abraço não puder mais me envolver
Eu o abraçarei... e irei com ele
Pois os anos em que eu o tive, e que gozei ao lado de quem e do que amo
Terão sido suficientes
Sem mais a acrescentar. Pleno e alvo.