sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

SOBRE GATOS, LADEIRAS E ESSÊNCIA

"... E enquanto passava por aquela rua, aquela ladeira, notei que na calçada se esgueirava um gato. Me fitava preocupado, medindo seus passos, encostado na parede, sobressaltado a cada movimento meu, a cada balanço de braços dos passos. Eu não oferecia perigo algum, e quis entender aquele bichano. O que havia acontecido para que estivesse tão alerta?

Me passou pela mente a idéia de que algo na essência daquele gato havia se perdido no caminho da evolução e da adaptação às comunidades humanas. Talvez em seus genes ainda pulsasse seu instinto caçador de um felino de grande porte. Ou talvez o instinto de sobrevivência estivesse apitando dentro dele, mesmo que não existam inimigos naturais para os gatos domésticos, e que não hajam predadores. Mas por que isso?

Talvez pela CHATICE! Sim, por um mundo que não oferece desafios próprios à sua espécie, eles se adaptaram à vida doméstica, como meros "gatinhos" com um novelo de lã a distraí-los.
E lembrei das pessoas. Muitas agoniadas, em vidas que vão contra sua essência, com costumes que tiveram que aprender para se inserirem, para serem aceitas. E talvez eu também, de algum modo - embora busque a autenticidade.

E passei pelo gato. Ele me olhou e correu. Eu segui, cheguei ao alto da ladeira, daquelas típicas de São Paulo. Respirei fundo, e desejei achar o equilíbrio entre o primitivo instinto e a comodidade do lugar comum. Decidi que não quero ser adestrado, não quero viver o que esperam que eu viva; mas também não quero passar um dia inteiro correndo sob o Sol atrás da presa, comendo sua carne crua como recompensa. E me senti grato por ter consciência destas coisas, pois mesmo que eu aceite uma condição comum, a minha aceitação demonstra total soberania sobre minha vontade, pois liberdade plena só possui quem tem o poder de abrir mão dela. O libertino é apenas um fantoche, prisioneiro de uma falsa liberdade.

No caminho de volta encontrei outro gato. Ele deitado me olhou e voltou a dormir... "