sábado, 3 de abril de 2010

GENTILEZA: A CURA DA INDIFERENÇA (pequeno conto)




José era um professor, daqueles que adoram lecionar. Dava aulas cada dia em um local diferente; sua paixão por lecionar vinha da esperança de fomentar em jovens um espírito guerreiro que os levasse à Revolução Interior, uma metanóia que desencadearia na tão sonhada sociedade fraternal. Para uns locais pegava condução, para outros ia a pé, o dinheiro ainda não dava para ter um carro.

Nestas andanças tinha bastante tempo para pensar, e muitas vezes sentia-se triste, pois apesar dos muitos alunos e de sua linda família, sentia-se só e anônimo: frustrado por não enxergar muitos sinais de mudança em seus pupilos.


João era catador de lixo. Na verdade, não era lixo mesmo, ele catava papelão, garrafas pet de plástico, vidro, latas de alumínio, e as vendia para reciclagem. Sem saber, ajudava a cidade dos aristocratas paulistanos a não se afogar em seus próprios detritos. Arrastava durante o dia inteiro um carinho hand-made cheio do material que viria a ser o sustento de sua linda e sofrida família, que morava numa casa de madeira e papelão num disputado lote de terra embaixo de um dos muitos elevados de Mamãe Sampa.

Andava muito a pé, sob sol quente e garoa fina e fria; nestas andanças, pensava muito, e quando esquecia um pouco aquela vontade que lhe dava de tomar uma cana para esquentar a goela e encorajá-lo a caminhar sobre pés doloridos, sentia-se frustrado por passar por multidões como um fantasma sem ser notado, entristecia-se por não ter a mesma sorte que eles. Sentia-se anônimo.


Naquela terça-feira José saira mais cedo do colégio, e resolveu andar até sua casa. Tomou coragem, encarou o sol quente das 16:45 hs e bateu perna. Avistou à frente, com a garaganta já secando, um andarilho com seu boné sujo sob o mesmo sol puxando um carro com sucata que se estendia a 2,5 mts. do solo. Pensou consigo: "Cara, como este companheiro consegue suportar isso?" e continuou a caminhar em direção ao homem sofrido.

Era João, que fazia uma força tremenda para puxar o carro com pneus carecas de um fusca à muito já transformado em lata de sardinha, sem um pingo de graxa nos rolamentos, aventurando-se entre carros e caminhões, deixando a esquerda livre para ultrapassagem. Enquanto se aproximava de José, avistou em sua mão um livro, e conseguiu ler a palavra "filosofia" em sua capa. Pensou: "Deve ser bacana saber destas coisas". Parou para recolher caixas de papelão que se amontovam aos pés de um poste, enquanto José se aproximava mais.


Os dois trocaram olhares, e cordialmente José o cuprimentou com um aceno, respondido por João com um "Olá, filósofo!". José impressionou-se com a observação do andarilho: "Olá, companheiro! Sol quente, né?!?!", respondido com João limpando com as mãos o suor da testa, enquanto carregava o carrinho. "Qual é o teu nome?" - arriscou-se João, que recebeu em resposta: "Sou o José". Como já havia terminado de carregar de papelão seu carrinho, João se despediu, desejando um bom descanso para José, que agradeceu e perguntou seu nome: "Meu nome é João". Acenos, e cada qual seguiu seu caminho, pensando em como foi inusitado aquele rápido encontro.


Dias depois, ao sair de uma escola numa quinta-feira, José depara-se com o mesmo andarilho que o havia encontrado naquele dia. "Qual é mesmo o seu nome?" , pensou fazendo força sem sucesso para lembrar o nome do companheiro. O cumprimenta dizendo: "Boa tarde, companheiro!" , ao qual João responde de bate-pronto: "Boa tarde José!" . Eles se olharam, e seguiram seu caminho.


Na cabeça de José, enquanto seu coração acelereva emociondo, ele pensava "...ele lembrou do meu nome! Puxa vida, que gentil!"


Enquanto puxava sua carrocinha, João lacrimejava com um largo sorriso nos olhos pensando: "Que bacana este cara, por 2 vezes me olhou nos olhos e me cumprimentou! Gente boa ele!!!"


Naquele dia, ambos foram para casa curados da indiferença que os matava; e mesmo que ainda se entristeçam, lembram-se de como a gentileza de uma pessoa foi tão marcante em suas vidas, a ponto de devolver-lhes a coragem necessária à vida.


Uma lição que deve ser aprendida por todo aquele que ousar tomar o nome de Cristo por mestre, mentor, grande pensador ou pedagogo, ou Deus; pois seu chamado inclui fazer as suas obras, com o mesmo coração e Espírito disposto.