domingo, 24 de janeiro de 2010

O POUCO GOSPEL E O MUITO CRISTÃO - por Carlo Carrenho


Copiei este ótimo texto de Carlo Carrenho do site Cristianismo Hoje em http://cristianismohoje.com.br/ch/o-pouco-gospel-e-o-muito-cristao/ por ele expressar resumidamente muito daquilo que entendo por música gospel; começo aqui a esclarecer aos amigos e leitores porque "desencanei" de tocar gospel e só toco música desvinculada de rótulos religiosos. Afinal o que é secular? Será que as letras das músicas entoadas nas igrejas de hoje - católicas, evangélicas e cia. ltda. - não são até nocivas à uma espiritualidade responsável e sadia? Loading...


Só uma palavra define música gospel: mercado.



Não entendo música gospel. Pior, não gosto de música gospel. E não gosto porque ela simplesmente não faz sentido, não se explica. Trata-se do único “estilo” musical que independe do estilo musical. Já existe rock gospel, samba gospel, pagode gospel, sertanejo gospel e o escambau gospel. Mas o problema é que a tal música gospel não se define.


Música gospel não se define pela temática. Caso contrário, Gilberto Gil e Renato Russo teriam de ser rotulados de góspeis com suas canções Se eu quiser falar com Deus e Monte Castelo, respectivamente. A primeira é uma ode à oração e a segunda, uma adaptação de I Coríntios 13. Música gospel também não se define pela opção religiosa de seus intérpretes ou compositores. Fosse assim, a arte produzida por Johan Sebastian Bach e por uma certa banda de Dublin teria de ser chamada de gospel.


Música gospel não se define tampouco como música litúrgica. Afinal, faz tempo que ela deixou a igreja para invadir palcos, shows e rádios mundo afora. A música gospel do século 21 possui objetivos muito maiores do que a tradicional função de adoração, louvor e introspecção da música litúrgica – embora, claro, ainda possa eventualmente cumprir esta função.


Mas então, o que define a música gospel? Só consigo pensar em uma palavra: mercado. A definição musical de gospel é antes de tudo mercadológica. Música gospel é aquela feita por evangélicos para evangélicos, de crente para crente, delimitando assim uma área de atuação e ganhando força comercial por meio de uma rotulação excludente. Até aí, tudo bem; qual seria o problema? Bem, o problema é que este tipo de música apenas alimenta e faz crescer o muro que construímos em volta de nosso gueto cristão. Contrariando afrontosamente o chamado de Jesus em Mateus 5.13 – “Vós sois o sal da terra” –, estamos nos fechando cada vez mais em nosso gueto, em nosso mundinho gospel, limitando nosso relacionamento e vivência com o mundo, tanto com seu lado impuro quanto com seu lado neutro ou simplesmente laico. E a tal de música gospel serve muito bem a este isolamento, impedindo que sejamos sal e que testemunhemos.


Os grandes músicos cristãos, verdadeiros missionários, são aqueles que levam a mensagem cristã ao mundo, sem se pré-rotularem de gospel, sem colocar o mercado à frente da mensagem e que, curiosamente, acabam por conquistar o mundo justamente pela sua atitude. E vamos dar nomes a alguns bois. Sou fã da música cristã do Bono Vox e do Lenny Kravitz. O vocalista do U2 dispensa apresentações. Filho de mãe anglicana e pai católico, Bono conviveu com a divisão religiosa desde pequeno em sua própria casa. “Eu lembro de minha mãe levando eu e meu irmão à igreja e meu pai esperando lá fora. Uma das coisas que aprendi com minha mãe e meu pai é que a religião frequentemente prejudica Deus”, já declarou a celebridade irlandesa. Ainda assim, a fé de Bono sobreviveu e ele leva uma vida de acordo com os preceitos do cristianismo.


Mas estamos aqui para falar de música, e este trecho da letra de "I still haven’t found what I am looking for" é um verdadeiro hino à fé:

Eu acredito no Reino Vindouro
Quando todas as cores sangrarão em uma
Sangrarão em um só
Mas, sim, eu ainda estou correndo
Você quebrou as cadeias
E você soltou as correntes
Carregou a cruz
Da minha vergonha
Oh, minha vergonha
Você sabe que eu acredito


Já Lenny Kravitz eu descobri recentemente, quando tive a chance de assistir um de seus shows. Curti muito e depois do show fui pesquisar a vida deste filho de pai judeu e mãe negra. A primeira surpresa veio quando descobri que ele tem uma tatuagem com os seguintes dizeres: “Meu coração pertence a Jesus Cristo”. Depois, lendo suas entrevistas, soube que ele se converteu aos 13 anos por meio de um amigo e que sentiu fisicamente a presença de Deus no quarto em que estava naquele momento. Recentemente, tem se declarado casto, evitando uma atitude hipócrita em relação aos preceitos cristãos em que acredita. Mas e a música deste multinstrumentista novaiorquino? O que ela tem de cristã? Responda você mesmo depois de conhecer a letra de The Ressurrection:


Se você sentisse o que eu posso sentir
Bem, então você saberia que seu amor é real
Se você ouvisse o que eu posso ouvir
Bem, então você saberia que o Rei está próximo
A ressurreição está aqui para ficar
E ele está voltando de novo
Para resgatar suas almas e nos tornar livres
A ressurreição está aqui para dizer
Que ele está voltando de novo
Veja o que ele fez comigo
Agora eu vivo em outro tempo e espaço
Ele andou no caminho da retidão
Para nos proteger da ira de Satanás
Não estamos sozinhos
E estamos indo para casa


Alguma dúvida?