sábado, 5 de setembro de 2009

CONSIDERAÇÕES SOBRE CERTAS ATITUDES


Por Kalil Bentes

Não sou pastor. Não exerço este cargo eclesiástico em minha comunidade de fé. Nem sei se algum dia o exercerei. Mas desde o dia em que minha esposa e eu nos engajamos na Igreja temos exercido a função pastoral, que nos leva a visitar pessoas, buscar conhecer suas vidas e nos colocar à disposição para que sejamos procurados em caso de necessidade. Isto é natural, não buscamos isso; vem de nossas personalidades, as quais o Senhor conhece e usa, dando-nos um chamado.


Conhecemos muitas pessoas e famílias, diferentes e preciosas, até os dias de hoje. Estivemos diante de pessoas de posses, e pessoas que não tinham nem o alimento do dia garantido. Pessoas elegantes, e pessoas sem a mínima possibilidade de higienizar-se. E pudemos ver em cada uma beleza, pois cada individuo guarda em si a imagem do Deus Altíssimo em sua singularidade.


Tenha sempre a grande certeza de que nunca lucramos nada em cada relacionamento destes que tivemos. Sempre agimos por amor e por gratidão, lembrando-nos de que em algum momento alguém havia feito semelhantes coisas por nós. Mas inconscientemente (mudo agora da terceira pessoa para a primeira) busquei algo dessas pessoas: amizade. Não queria ser o mentor espiritual daquelas pessoas; não queria que elas viessem a mim pedir oração somente, ou ouvir um pouco sobre a bíblia; queria estar com elas, e me sentir querido! Conversar, e sentir que eu também era especial, por ser simplesmente eu.


Mas, enquanto o tempo passava, percebi que não era o que de fato acontecia: sabe aquela “impressão” de que só você é quem telefona? Pois foi o que percebi de muitas destas pessoas. Mas havia exceções...


Uma daquelas pessoas que citei, que não tinha a menor estrutura financeira, foi a que demonstrou maior carinho por nós. Nós a buscamos, acolhemos seus filhos na comunidade, ajudamos como podíamos financeiramente, demos apoio moral, oramos com ela, e a sua resposta foi ótima: levantou-se, conseguiu alguns trabalhos, com os quais pode comprar mantimentos e o que mais é necessário para uma casa. Foi à luta!

Ela passou a conversar com pessoas de sua vizinhança sobre as mudanças que precisavam ser feitas em suas vidas, e tinha algo que a endossava: sua própria transformação.


A partir daí, nossas conversas eram regadas à café-com-leite e bolo em sua casa; quando não nos via por um tempo, arranjava um tempinho e trazia bolo em nossa casa! Quando nossa filhinha foi gerada, até mesmo ganhou roupinhas e brinquedos dela. Que atitude! Nosso coração se aquecia com suas atitudes, que expressavam juntamente com suas palavras gratidão à nós, à comunidade e ao Papai Eterno.


A atitude desta irmãzinha contrasta ricamente com a de outras pessoas que nunca mais nos procuraram, e que em geral, tinham maiores condições, com carro na garagem, filhos em escolas particulares... estas, quando nos ligavam, geralmente era para compartilhar... algum pepino! Hahaha!!! Vinham atrás de nós como se fossemos sacerdotes do Deus Altíssimo, pedindo para que intercedêssemos por eles, e quem sabe Deus se compadeceria deles, e julgasse sua causa, e os tratasse com misericórdia...


O quero dizer é que temos aqui, entre tantas outras coisas, o resultado da pregação evangélica que lota as rádios e televisão, e que vende um deus vassalo, que tem como meta e obrigação satisfazer seus filhos egocêntricos e egoístas, com os pastores/padres como intermediários deste deus, ou melhor, como prestadores de serviços religiosos. Quando o serviço está completo, emite-se a nota, pagam-se as dívidas e vai-se embora. E o relacionamento com Deus e com o próximo que é a meta do evangelho acaba ironicamente excluída do processo.


Claro que o processo de individualização que o mundo sofre, onde o que importa é que os nossos desejos sejam satisfeitos custe o que custar - e o mais rápido que puder – está presente nisto tudo: a globalização se encarregou de trazer esta doença até os confins da terra... mas a igreja não deveria ser o refúgio disto tudo??? SIM!!! Mas tenho visto que muitas pessoas religiosas tem caído neste erro, “♪...vivendo prá si; morrendo por si; mesmo assim achando-se filhos de Deus...♪”. Leonardo Boff fez muito bem em estabelecer a diferença entre religião e espiritualidade em seu livro “Espiritualidade” – Ed. Sextante; em outras palavras (pois acabo de empresta-lo, o que me impede de cita-lo!!!), espiritualidade provoca uma mudança interna; para seguir uma religião não é necessário ter espiritualidade... as duas coisas deveriam andar juntas, mas a espiritualidade não depende da religião. Nem vou comentar o cara que o influenciou diretamente ao escrever o livro sobre o assunto – embora Jesus falasse isto mesmo abertamente; leia e desfrute!


Para que procuro uma religião? Ou um passo além: para que procuro um igreja cristã? Precisamos nos fazer periodicamente esta pergunta. Paulo Brabo comentou em seu blog que deixou de ser dependente de igreja: ele não se sentia abusado por ela, mas sim que a usava para satisfazer suas necessidades de atenção, de “aparecer”, enfim... ele fez a lição de casa, e eu tenho feito isto também. Descobri que meu papel na igreja é o de servir da melhor forma que eu puder. O Espírito nos compara à um organismo vivo, um corpo, do qual Jesus é a cabeça, onde todos tem uma função que complementa a dos demais; alguns tem maior exposição, outros menos, mas com a mesma importância(–cf ICoríntios 12.)!


A Igreja, virgem-mãe imaculada de todos nós, recebe-nos para que sejamos nutridos pela Palavra de Deus, acolhidos, curados, e capacitados a sermos parte dela. A glória do verdadeiro cristão não é de saber obter a benção de Deus, mas a de se dispor a ser ele mesmo uma benção! O que passar disto vem do diabo...


Santidade segundo muitas religiões cristãs significa ser um E.T. na rua, andando com roupas diferentes, lendo somente livros “cristãos”... enquanto que a santidade bíblica é o resultado de não ser alheio aos outros; é ter o coração convertido ao irmão; é não deixar que a sociedade consumista e engessadora determine meu modo de vida e as escolhas que faço. Agora, se existem cristãos que trazem o comportamento mundano para a Igreja e se recusam a muda-lo, ou há algo de errado neles, ou em suas bíblias... será que o mundo venceu a Igreja? Será que Jesus vai passar por mentiroso? O que significa “as portas do inferno não prevalecerão sobre ela” ? Que tal parar um pouco, e refletir sobre estar na igreja e ser Igreja.


Resistirei á tentação de listar o que é mundano e o que é santo; cada um deve exercitar seu senso crítico através da leitura e discussão, e não dar ouvidos á um lunático qualquer sem analisar se o que ele fala tem fundamento, mesmo que seja eu ou o Leonardo Boff, ou até mesmo Arnaldo Jabor na cátedra de “lunático”!


Sabe, é por isso que decidi escrever um blog: não acho que teologia deva ser algo de púlpito ou salas de aula, e sim, da mesa, da roda, do ônibus... enfim, da vida! Queria registrar meus pensamentos e aplicações daquilo que Cristo ensinou e compartilhar, abrir espaço para a discussão. Obrigado, Ravi Zacharias.


“Não se amoldem às estruturas deste mundo, mas transformem-se pela renovação da mente, a fim de distinguir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que é agradável á Ele, o que é perfeito.” Romanos 12, 2 – Edição Pastoral, Paulus.