segunda-feira, 27 de julho de 2009

Igreja ou igreja???

Por Kalil Bentes


Ainda hoje, em 2009, 500 anos após a reforma iniciada por Lutero, é difícil ver alguém definir de um jeito legal a palavra “igreja”. Nós ainda olhamos para prédios com um CNPJ (ou não...), e pensamos se aquela “igreja” é a certa; se “a mão de Deus” ou “o poder de Deus” estão ali... .

Mesmo após nosso grito pela liberdade de ler as escrituras sem o bedelho de ninguém, não fazemos uso dessa liberdade, e nos conformamos a repetir os mesmos credos que os nossos padres, pastores, papas, apóstolos, bispos, e muitas outras cathedras; e a primeira “voz de autoridade” que ouvimos muitas vezes é a de que estamos na igreja certa! Mas, afinal, o que é igreja?

Para responder à isto, gostaria de invocar as palavras de Deus (calma, não é a caixa de pesquisa do Google, que está em todo lugar, tudo sabe, e tudo faz!!!) nas Sagradas Escrituras; quero ler primeiro um pedaço da oração sacerdotal de Jesus no evangelho de São João, Capítulo 17, 20-21:

“Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio de Tua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em Mim e Eu em Ti, também sejam eles em Nós; para que o mundo creia que Tu me enviaste” (ARA)

A vontade de Jesus, pela qual pediu ao Pai, é de que aqueles que fossem Seus discípulos vivessem em unidade, em comunhão, em união; e de que, da mesma forma como Ele e o pai são Um, que os discípulos fossem Um Neles. Ele não falou sobre penteados iguais, roupas, vocabulário ou versões das Escrituras; falou em arder em amor pelo Pai, e canalizar este amor em direção às pessoas que nos rodeiam; falou em amar da mesma maneira que o Pai nos amou, pois “ninguém tem amor maior do que este: em dar a sua vida em favor de seus amigos”; falou no que São Paulo trataria de explicar anos depois aos discípulos em Roma; o mesmo Jesus que orou ao Pai, e antes explicou muitas coisas aos onze, falou mais tarde nestas palavras através da retórica de Paulo – Romanos 12, 4-5:

“Porque, assim como num só corpo temos muitos membros, mas nem todos os membros têm a mesma função, assim também nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros...”

Um corpo – do qual Jesus é a cabeça - é a metáfora usada por Paulo para explicar o relacionamento vertical (com Deus) e horizontal (com os irmãos) dos cristãos, da Igreja (ecclesia). Estes, que Jesus orou pelo Pai, são “aqueles que vierem a crer em mim”; e esta é a descrição daqueles que são chamados de Igreja, Corpo de Cristo, Salvos...

Crer... eis o requisito; não para fazer parte de uma igreja, mas para ser Igreja (repare nos “is” minúsculo e maiúsculo)! E ser Igreja requer uma transformação no modo de pensar, de sentir e de viver, gerando o chamado Fruto do Espírito. E justamente por se tratar de uma mudança interna, somente Deus pode saber quem é membro da Igreja ou não; Só Cristo conhece o Corpo! Qualquer tentativa nossa de tentar separar quem de fato segue os passos do Homem de Nazaré pode, à princípio, ser fútil; pois qualquer boa ação pode estar carregada de vaidade, orgulho, arrogância e tentativas de auto-salvação; e uma falta de frutos pode esconder uma batalha interna de um coração quebrantado para ser transformado à imagem e semelhança de Jesus.

“A Igreja pode ser encontrada na igreja, mas não só na igreja a Igreja pode ser encontrada”

ou:

“A Igreja está presente em todo o mundo, inclusive dentro das igrejas”

Logo, tenho que ter muito cuidado ao ver um católico apostólico romano com seu terço na mão, ou prostrado diante de uma imagem, bem como um evangélico com sua bíblia fedendo à cecê caminhando para cultuar à Deus em sua denominação. Ou uma pessoa que não freqüenta regularmente uma confissão, apesar de demonstrar seu apreço pelass palavras e vida de Jesus. Deus não aceita a aparência do homem. “O Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração” – I Samuel 16, 7

Na próxima vez em que você vir um irmão cometendo pecado, não te esqueça de que você mesmo não passa um dia sem pecar milhares de vezes; evangélico, quando a idolatria católica te impedir de enxergar um católico com amor, como um irmão, lembre-se de que você mesmo tem muitos pecados; católico, quando virdes um evangélico que não se submete à autoridade papal, lembra-te de que você mesmo desobedece ao Pai das almas muitas de vezes, de sol à sol.

Quando formos Um, e encarnarmos Jesus, o filho do carpinteiro, o mundo terá o mais eloquente discurso apologético da fé cristã.


“Para que todos sejam um, como tu, o Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.”

- João 17, 21