quarta-feira, 1 de abril de 2009

SOBRE A ESPIRITUALIDADE CRISTÃ DOS TEMPLOS




Faço parte de uma confissão evangélica na cidade de São Paulo. Já fui engajado na Renovação Carismática Católica. Durante meus 10 anos de caminhada notei que sempre que eu amadureci em relação à fé, isto era fruto direto dos questionamentos que se levantavam em minha mente e do caminho que eu percorria tentando responde-los. Dentre tantas coisas, me via sempre tentando responder à questão: “A espiritualidade cristã depende de freqüência ao templo?”. Foi uma caminhada bem gostosa até que eu chegasse onde estou hoje em relação à pergunta. Não, não creio que minha atual mentalidade seja a definitiva, mas também não duvido se for...

Durante a história narrada na Bíblia, vejo que Deus se relaciona com as pessoas de uma maneira, até que elas mudem os modos desse relacionamento. Por exemplo, lemos que Deus se comunicava de uma maneira muito íntima com Adão e Eva, até que eles se rebelam e se escondem de Deus; Adão atrás de Eva, e Eva atrás da Serpente. Acaba-se a cumplicidade! Mas com o passar do tempo, após a tragédia envolvendo Caim e Abel, outro filho nasce ao casal, Sete, que gera Enos; este volta à invocar Yahweh. E daí para frente, à todos aqueles que chamam pelo Pai recebem Sua resposta: Noé, Abraão, Isaac, Jacó, José... até que em Moisés é estabelecido pela primeira vez após o êxodo do Egito um local para se dirigir a Deus: o tabernáculo.

E qual o problema disto? É que os hebreus não entenderam como Deus queria habitar no meio deles; Deus queria estar entre eles. Mas eles só conseguiam enxergar a divindade através da ótica dos egípcios ou dos povos da Mesopotâmia: deus lá exige; eu cá obedeço; deus lá abençoa; eu cá me borro todo... e este pensamento continua nos tempos de Davi, que a despeito da intimidade que gozava com o Senhor, insiste em lhe construir um templo – os outros deuses o têm, por que não o Senhor???

Daí em diante, somente alguns heróis entendem que Deus é Espírito, não uma estátua que pode ser enclausurada em um altar, e colocam seus corações perto ao do Pai, a despeito do local (mas ainda prestando certa reverência ao templo, diga-se de passagem...). Até que o Verbo se fez carne...

Aí esculhambou de vez: Deus, que eu agora à pouco disse não poder ser contido em um templo, se enclausura em um corpo humano nascido de mulher! Pois é, quanta sede em estar com os homens! Se Maomé não vai à montanha... Os judeus não engoliram muito bem este papo de Deus-Homem que Jesus pregava, e ainda se revoltaram quando Ele disse que destruiria o templo e o refaria em três dias. Jesus se referia à seu corpo; era como se dissesse: “Ok, vocês crêem estar Deus no templo; então eu digo que morrerei, e após minha ressurreição as pessoas entenderam que Deus não pode ser contido num templo feito por mãos humanas, mas pode habitar em um feito por ele mesmo.”

Na festa do pentecostes logo após a ressurreição e ascensão de Jesus, a mentalidade é encarnada: o Pai e Jesus vêm pelo Espírito Santo habitar nos discípulos; simplificando, Deus muda seu endereço do Céu para os homens (valeu, Kivitz!). Aí, os discípulos finalmente passam à testemunhar sobre Jesus; como Lucas diz no início do livro de Atos dos Apóstolos, Jesus continua a fazer e a ensinar, de dentro para fora. Espalham o evangelho, ajudam-se mutuamente, e passam a amar seus opositores. Adoram ao Pai, mas não em Samaria no monte Gerizim, nem em Jerusalém no monte Sião, mas adoram ao Seu corpo, a Igreja, pelo qual São Paulo luta e intercede juntando donativos para o suprir enquanto passava fome em Jerusalém!

Assim, o Evangelho se espalha pelo Império Romano. Cristãos são jogados na arena do coliseu com os leões; não recebem o livramento de Daniel na cova da Babilônia, mas pelos relatos históricos, nem se passava pela cabeça destes nobres em pedir isto, pois é uma honra morrer pela cruz.

Aí, cerca de 300 anos depois o império vira cristão por decreto; são construídos templos como os dos pagãos e idólatras, e a cristandade passa a adorar à Deus dentro destes prédios novamente; as pessoas que não aceitam a mensagem destes “discípulos” sofrem barbaridades e perseguições. A Reforma mudou bastante coisa, mas se esqueceu de ensinar mais profundamente sobre onde se deveria adorar.

Onde está Deus nisto tudo? Dentro do templo! De qual? Do único no qual Ele quis habitar: mulheres e homens que são mortos de diversas formas dia à dia por proclamar a mensagem do Evangelho. Enquanto isso, “discípulos” se acotovelam pelos horários e canais para seus programas televisivos, cada qual com um monte diferente pelo e para adorar...

“Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra” – Salmo 121, 1-2