segunda-feira, 2 de março de 2009

ÓPIO DO POVO? Um texto do rabino JONATHAN SACKS


Tomo licença para publicar este pensamento deste rabino que em muito tem colaborado para que a fé em D-us não se torne religião, e sim um vida diante dEle, com frutos visíveis à todos.


Ópio do povo? Nada nunca foi menos opiáceo do que essa religião de sagrado descontentamento, de insatisfação com o status quo. Abrahão, Moisés, Amós e Isaías lutaram em nome da justiça e dignidade humanas. Enfrentaram padres e reis; sem medo, discutiram com Deus. Essa marca, feita pela primeira vez por Abrahão, nunca perdeu sua força. Sua expressão mais poderosa se encontra em Jó, com certeza o livro mais contestatório a fazer parte de um cânone de escrituras sagradas. Seu eco é ouvido, e ouvido outra vez através dos tempos no Midrash rabínico, nas kinót (lamentos) da Idade Média, nos contos chassídicos e na literatura do Holocausto. No judaísmo, fé não é aceitação. É protesto contra o mundo tal qual é em nome do mundo como ainda não é, mas deveria ser. A fé não reside na resposta, mas na pergunta - e quanto maior o ser humano, mas eloqüente sua pergunta. A Bíblia não é ópio metafísico, mas precisamente o oposto. Seu propósito não é transportar aquele que crê a um paraíso particular. É, isto sim, o desejo apaixonado, contínuo, de trazer o paraíso até a terra. Até conseguirmos, ainda há trabalho a fazer.

Algumas culturas isentam o ser humano da responsabilidade, levando-nos para longe do mundo de dor rumo a um estado de beatitude, êxtase, enlevo. Elas nos ensinam a aceitar o mundo como é e a aceitar a nós mesmos do modo que somos. Promovem paz de espírito, o que não é pouca coisa. Judaísmo não é paz de espírito. “Os justos não têm descanso, não neste mundo nem no próximo”, diz o Talmud. Eu continuo admirado diante do desafio que Deus nos deu: o de sermos diferentes, iconoclastas do politicamente correto, de personificarmos o ponto de interrogação assinalado por Ele diante da sabedoria convencional vigente, de construirmos, transformarmos, consertarmos o mundo até que ele se torne um lugar digno da Presença Divina - tudo porque nós aprendemos a honrar a imagem de Deus que é a humanidade.

Acreditar na Bíblia requer coragem. Não é para os fracos de coração. Sua visão do universo em nada é reconfortante. Podemos ser livres, podemos ser afluentes, mas em Pêssach comemos o pão da aflição e sentimos o gosto amargo das ervas da escravidão. Em Sucot, nós nos sentamos em barracos e aprendemos o que é não ter um lar. No Shabat, vivemos na prática nosso protesto contra uma sociedade movida pela produção e consumo incessantes. Todos os dias, falamos em nossas preces de Deus “que proporciona justiça aos oprimidos, e dá alimento aos famintos… liberta os agrilhoados… abre os olhos dos cegos e reergue os caídos… protege os peregrinos; ao órfão e à viúva Ele reanima…” (Salmos 146:7-9). Imitar Deus é estar alerta à pobreza, ao sofrimento e à solidão do próximo. O ópio elimina a sensibilidade à dor. A Bíblia nos faz senti-la.
É impossível se comover com os profetas e não ter consciência social. A mensagem que transmitem em nome de Deus é uma: O mundo não vai melhorar sozinho. E não se tornará um lugar mais humano se delegarmos a outros - políticos, articulistas, apologistas profissionais - a tarefa nossa de trazer a redenção. A Bíblia hebraica não começa com o apelo do homem a Deus, mas com Deus nos chamando, a cada um de nós, exatamente aqui onde estamos. “Porque, se de todo te calares agora”, diz Mordechai a Ester, “de outra parte se levantarão para os judeus socorro e livramento… quem sabe se não foi para este momento que chegaste ao reinado?” (Ester 4.14) Esta é a pergunta que Deus nos faz. A resposta é sim. Se não fizermos o que nos cabe, talvez outros façam. Mas não teremos, então, compreendido por que estamos aqui e o que somos intimados a fazer. A Bíblia é o chamado de Deus à responsabilidade humana.

(Rabino Jonathan Sacks, Para Curar um Mundo Fraturado - A ética da responsabilidade, Editora e Livraria Sêfer, São Paulo. Pág. 42-43)