segunda-feira, 30 de março de 2009

O BRASIL DOS BRASILEIROS


Texto do pastor da Igreja Betesda de São Paulo, postado em seu blog: http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=65&sg=0&id=2152

Por RICARDO GONDIM.

Apenas negro e pobre passam mais de quinze dias na cadeia.

Delegado sofre perseguição dos tribunais enquanto os acusados desaparecem do noticiário.

Gado, milagre divino e sucessivos prêmios na loteria explicam a dinheirama de quem ficou rico e não quer explicar a fortuna.

Escândalo político esvazia o anterior que, de repente, parece menor.

Polícia atira antes de perguntar, principalmente, nas favelas.

Bancos publicam lucros inéditos no planeta.

Caixa dois de campanha política é comum, com subsídio de empreiteiras espalhado por todos os partidos.

Pontes, estradas, viadutos e passarelas acabam custando até dez vezes mais que o orçamento inicial. Sobram leis, impostos, fiscais, taxas, sobretaxas, mais impostos, para esfolar o cidadão.

Salário mais benefícios de parlamentar pagam dezenas (em alguns municípios, centenas) de professores.

Traseiro feminino chama-se patrimônio.

Filho de corrupto estiloso posa de playboy.

Tiroteio com “bala perdida”, se não matar, perde o status de notícia.

Só se considera chacina, a eliminação sumária de mais de meia dúzia.

Homicida sentenciado pela morte de uma moça jornalista aguarda em liberdade o julgamento de todos os recursos da defesa, e com isso já se vão quase dez anos.

Charlatanismo, o exercício ilegal da medicina, é prática comum nos programas evangélicos de televisão, mas nenhum pastor-curandeiro foi para o xilindró.

Presidente da República compra a extensão do seu mandato, o vendedor tem os direitos políticos cassados, mas não acontece nada com o Primeiro Mandatário.

Hospitais públicos tratam a patuléia sem um mínimo de dignidade. Anciãos morrem nos corredores, crianças são infectadas nos berçários e faltam remédios para o tratamento do câncer, mas que importa? O Ronaldão fez gol e o feriadão está chegando.

Brazilzilzilzilllll... !

Soli Deo Gloria

segunda-feira, 23 de março de 2009

O LADO NEFASTO DA RELIGIÃO - pt.2


"A Volta do Filho Pródigo" - Pintura de Rembrandt, em sua visão do acolhimento que o Pai nos proporciona, e o qual devemos oferecer como cristãos .


Há um homem que conheci que frequentou uma confissão religiosa (Este negócio de chamar instituições religiosas de igrejas não é comigo...). Depois de haver se afastado de uma congregação na qual ele havia se decepcionado, resolveu com sua esposa ficar "de molho" um pouquinho, colocando as idéias no lugar, em casa.

Um pouco depois, este queridão conheceu uma outra congregação onde sentiu que o estudo era levado à sério, e, conversando com sua amada, resolver ir com ela e seus dois filhinhos participar das reuniões para conhecer a comunidade. A princípio, gostaram, e resolveram se engajar.

O tempo passa, e quando este casal de amigos consegue se sentir em casa novamente, vão a cada dia que passa sentindo algo estranho no ar; parece que muitos rostos em determinados momentos os olham com um certo desdém. Tentam seguir a caminhada, e pelo que me disseram, orando para que não seja nada demais.

Mas o que não poderia acontece: alguns membros desta comunidade de fé têm preconceito, e resistem em aceitar aquele bonito casal em seu meio. Ficam sabendo pelos códigos corporais e por outros irmãos que perceberam que um lugar que deveria ser o reduto da acolhida, compreensão, integração e convivência pluralista estava praticando hipócritamente a segregação social.

Conversando com este amigo, ele me revelou seu coração sangrento em tristeza pelo o que vem acontecendo, pois a segregação é velada, feita de maneira nefasta por "debaixo dos panos", mas que nunca iria retribuir de uma maneira igual ou pior; ele me disse que orava para Deus o fortalecer, pois gostaria de, como cristão, ter a alegria de dar, sem se importar muito com o que estava recebendo; disse que não abandonaria a comunidade - por hora - pois ele diz que ele deve ser a mão de Deus a acolher mesmo aqueles que o desprezaram; queria agir não como o jovem filho pródigo, nem seu endurecido irmão mais velho, mas como o Pai que acolhe a ambos.

Vi sua dor, mas vi sua esperança; o amor que vem de Deus, e que espera poder agir de maneira muito mais nobre do que aqueles que um dia acharam que sua esposa, filhos e ele mesmo valiam menos como pessoas por serem batalhadores de sol-a-sol, com todas as dificuldades em suas finanças.

Pedi à ele licença de publicar um pouco de sua história, sob a condição de que de maneira alguma citaria sua congregação nem seu nome. E gostaria eu de comentar um detalhe: é de se esperar que uma pessoa que passe por injustiça seja mais tolerante com o próximo, ok??? Tenham em mente que aqueles que praticaram (e ainda praticam!) essa barbárie são pessoas que já foram muito molestadas em São paulo: nordestinos e negros.

Senhor Jesus, nos dê a benção de crescer à Tua imagem e semelhança tal qual este pequenino Teu; toca o coração dqueles que o fecharam, e os ajude à entender que eles perdem por se afastarem dessa família que de fato busca fazer Tua vontade, e a perceberem que maldade tão grande é esta que machuca Teu coração: escandalizar Teus pequeninos. Tem misericórdia de nós, Senhor, e nos conduza à Tua face... no irmão... onde mais poderia estar???
Em Teu nome, Papai,
Amém.

sexta-feira, 13 de março de 2009

A VOLTA DE CRISTO SOMOS NÓS - por PAULO BRABO

Publicado no site da IBAB - http://www.ibab.com.br/ed090308.html , é do Paulo Brabo, um blogueiro que muito admiro. Para refletir. Ao som de "Going Where the Wind Blows" do Mr. Big.

A encarnação do Filho, em sua atordoante exuberância, aparentemente não bastara para um Deus suficientemente ambicioso. A divindade provera para si, através do precedente de Jesus, uma segunda e definitiva encarnação, efetuada pelo derramamento profuso da consciência universal de Cristo sobre os que eram tocados por ele. Deus revelava finalmente seu plano: um Filho singular não lhe bastava; seu projeto era ter uma multidão de Filhos, uma comunidade vertiginosa e viva de conspiradores forjados segundo o molde revolucionário da mente de Cristo.

E, quando acontece, acontece sobre todos sem exceção, homens e mulheres, velhos e adolescentes. O texto enfatiza continuamente esta unanimidade pelo uso acumulado das expressões “todo”, “todos” e “cada um”. Nisto, na verdade, está a singularidade da coisa toda: nesta perfeitamente cavalheiresca abrangência de generosidade, sem precedentes e sem sucessores na história de todos os cultos. Em todas as tradições, o sobrenatural é de algum modo seletivo; o que acontece no dia de Pentecostes, em seu generoso abraço, é sobre-sobrenatural.

Que o evento está colocado no relato de modo a contrastar com a recente votação orquestrada por Pedro não deve haver nenhuma dúvida. Pois a iniciativa de Pedro é, no fim das contas, elitista e institucional; o derramamento do espírito é universal e democrático (para não dizer socialista ou, ainda melhor, anárquico).

A votação de Pedro, de iniciativa humana, é delimitadora, fazendo apenas confirmar e legitimar as categorias pré-estabelecidas; o derramar do Pentecostes, de iniciativa de Cristo, é igualitário, dissolvendo em sua embaraçosa unanimidade todos os rótulos e categorias.

A votação de Pedro é sensata, ordenada e ordeira, mas nada realmente produz; o derramamento do espírito é loucura e vento e ruído e caos e, nisto, todos se entendem e todos serão transformados.

De um universo de muitos, a eleição de Pedro peneira dois e premia finalmente um. O espírito escolhe todos e sobre todos reparte a sua honra.

A votação de Pedro é manobra de exclusão, enquanto o sopro do espírito é abraço todo-inclusivo; mesmo os “de fora” são inequivocamente tocados pelo milagre (”ouvimos falar das grandezas de Deus em nossas próprias línguas”), e num instante estarão incluídos nele.

Impossível não ver, em toda essa subversão, a marca distintiva do homem de Nazaré. Pode ser possível perder Jesus de vista no livro de Atos, mas este definitivamente não é o momento. Jesus dissera que teria de partir para que seu espírito viesse; garantira que não deixaria os discípulos orfãos; assegurara que todas as nações veriam a sua glória. Eram promessas grandes e tremendas, mas seu plano se mostrara ainda mais arrojado.

Pois o que testemunhamos neste dia de Pentecostes é nada menos, senhoras e senhores, do que a volta de Cristo.

Jesus dissera que a sua vinda seria vista num instante do oriente ao ocidente, e aqui estão todos – da Pártia, da Pérsia, de Elã, residentes na Mesopotâmia, na Judéia, na Capadócia, em Ponto e na província da Ásia, na Frígia, na Panfília, no Egito e nos distritos da Líbia ao redor da cidade de Cirene, romanos residentes, tanto judeus de nascimento quanto convertidos ao judaísmo, de Creta e da Arábia – sendo tocados por ele e contemplando sem intermediários o seu esplendor.

É por isso que Jesus insistia ser necessário que ele fosse, isto é, não permanecesse neste mundo fazendo no nosso lugar o que não éramos capazes de fazer; era por isso que ele assegurava que seus discípulos fariam maravilhas maiores do que as que ele havia feito. Era esta sua promessa, era este o seu plano. Não devemos olhar para o céu aguardando a volta de Cristo, porque o Pentecostes explica-nos sem rodeios que ele voltou imediatamente. A volta de Cristo somos nós.
Por Paulo Brabo

AS CASAS E AS VERDADES - por ED RENÉ KIVITZ




Este texto é do pastor da Igreja Batista da Água Branca, Ed René Kivitz, e foi publicado no site Cristianismo Hoje - http://www.cristianismohoje.com.br/retrancas/As%20casas%20e%20as%20verdades/33671. Muito instrutivo.




Era uma manhã ensolarada e a caminhada já se estendia. A cidade estava logo ali. Antes da chegada, a fome. E depois da fome, uma figueira. Jesus se aproxima da planta esperando colher algum fruto. Mas encontrou apenas folhas. Não teve dó nem piedade – amaldiçoou a figueira, e deixou seus discípulos assombrados. Depois deu uma bronca em todo mundo e vaticinou: quem tiver fé, ainda que do tamanho de um grão de mostarda, vai mandar esse monte sair do lugar e ele vai obedecer. No meio dessa coisa toda, Jesus ainda encontra tempo para, literalmente, chutar o balde dos comerciantes do templo, que haviam transformado a casa do Pai em covil de ladrões.
O que uma cidade, uma figueira, um monte, um templo e a fé estão fazendo juntos nesta cena? Aliás, observe. Caso não tenha percebido, eles estão juntos. Não são episódios estanques, separados: o da figueira, o do templo e o aforismo sobre a fé. São peças de um quebra-cabeças que, montadas, deixam claro como o sol do meio-dia o que Jesus estava querendo dizer. Já, já, a gente chega lá. Mas quero contar outra história.
Certa ocasião, Cristo se deparou com um homem dominado por espíritos malignos. “Legião”, disseram, ao responder qual era seu nome. Diante do Filho do Deus Altíssimo, os demônios pediram que Jesus os deixasse entrar nos porcos, perto de dois mil. Jesus consentiu. Em seguida, os porcos se lançaram ao lago de Genezaré e se afogaram. O pessoal da região ficou louco da vida com Jesus e pediu que ele fosse embora daquele lugar.
Não tenho dúvidas de que você já ouviu e leu centenas de meditações baseadas nestes dois episódios da caminhada de Jesus com seus discípulos. Provavelmente, alguém já disse que seus problemas são como aquele monte citado pelo Mestre, e que podem ser superados pela fé. Não importam quais sejam seus embaraços, seus problemas, suas angústias e as razões do seu sofrimento; basta ter fé. Afinal, a fé remove montanhas, isto é, com fé a gente vence qualquer dificuldade. Também deve ter ouvido a respeito da autoridade de Jesus sobre os espíritos malignos, o que é absolutamente verdadeiro. E não é pouca autoridade, não. O Senhor deu conta de expulsar dois mil demônios de um homem de uma vez só. Eles fizeram fila e saíram um de cada vez. Então, imagine o que Cristo não é capaz de fazer com um demoniozinho tupiniquim! Principalmente, no palco de uma igreja evangélica. Com base na história do gadareno e sob a intercessão das mãos estendidas dos fiéis, os pastores se enchem de coragem e repetem sua fórmula infalível: “Sai desse corpo que não te pertence”.
Será que estes episódios se prestam apenas a ensinar a respeito do poder da fé para vencer dificuldades na vida e acerca da autoridade de Jesus sobre o diabo e seus asseclas? Ou haveria algo mais nas entrelinhas das narrativas? Fico com a segunda alternativa: os Evangelhos – decerto, a Bíblia toda – contêm linguagem cifrada, códigos secretos que comunicam verdades profundas, perfeitamente percebidas pelos circunstantes, porém raramente alcançadas pelos leitores contemporâneos. Mas, e a figueira, a cidade, o templo? O que fazer com essas figuras? Vamos lá.
Primeiro, o caso da figueira. Sabemos que essa árvore é um símbolo que identifica a nação de Israel. Assim também a cidade, o templo, e o monte. A cidade é Jerusalém, onde está o Templo de Salomão, no monte Sião. Jesus faz a limpa, cumprindo a profecia de Malaquias – “Logo virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais” – e a de Zacarias: “E, naquele dia, não haverá mais mercadores na casa do Senhor dos exércitos”.
Jesus deixa claro que Israel é uma figueira estéril, sem frutos, o que é demonstrado pela profanação do Templo e deturpação de sua religião. A nação é amaldiçoada; Sião deixará de ser o centro da revelação de Deus e Israel será preterida por um povo com quem Deus celebrará uma nova aliança – em Jesus, e não mais em Moisés: “É evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé”.
A fé que remove montanha não é a fé individual, aquela porção de fé de cada crente, mas coletiva, do povo da nova aliança:
“Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes. Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar. De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados. Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio. Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão”.
O monte removido pela fé não é a dificuldade particular de cada crente, mas Sião, o monte santo, que não se abala – ou melhor, não se abalava, até que Israel rejeitou o Messias, que conforme a Escritura, veio para os seus, mas não foi recebido por eles. Em Cristo, a Igreja – o povo da fé – recebe todos os títulos que pertenciam a Israel: “Geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido”.
A fé remove o Monte Sião. Portanto, da próxima vez que alguém lhe disser que a fé remove montanhas, diga que já removeu. Sião não é mais o que era. A figueira secou. E nasceu a Igreja, povo de Deus, povo da fé.
A mesma coisa acontece com a história do endemoninhado gadareno. Os espíritos imundos chamam a si mesmos de Legião, numa clara e explícita referência ao poderio militar romano. Assim como os opressores egípcios se afogaram no Mar Vermelho, quando com mão forte Yahweh libertou Israel pelas mãos de Moisés, também os opressores romanos estavam se afogando no Mar da Galiléia, sob as ordens daquele que ousou pronunciar “ouvistes o que foi dito por Moisés; eu, o Messias, porém, vos digo”.
Da próxima vez que alguém lhe disser que Jesus é maior que os demônios, concorde. Mas acrescente – ele é também maior que Moisés. E maior que o Egito, a Babilônia, a Pérsia. É também maior que Roma. Maior que os espíritos malignos que agem nas entranhas do mundo, que jaz no maligno. E, porque maior que tudo e todos, é Senhor e libertador, aqui e agora, ali e além; Rei de um reino que não terá fim.
Assim como uma casa se faz com tijolos, mas uma pilha de tijolos não é uma casa, também uma verdade cristã se faz com versículos – mas um amontoado de versículos não equivale necessariamente a uma verdade bíblica. Uma casa é resultado de um processo inteligente de ordenação harmoniosa de tijolos, todos agrupados conforme determinado projeto. Assim também, a verdade do Evangelho possui sua lógica. Fora dessa lógica intrínseca, versículos não passam de tijolos.

segunda-feira, 2 de março de 2009

ÓPIO DO POVO? Um texto do rabino JONATHAN SACKS


Tomo licença para publicar este pensamento deste rabino que em muito tem colaborado para que a fé em D-us não se torne religião, e sim um vida diante dEle, com frutos visíveis à todos.


Ópio do povo? Nada nunca foi menos opiáceo do que essa religião de sagrado descontentamento, de insatisfação com o status quo. Abrahão, Moisés, Amós e Isaías lutaram em nome da justiça e dignidade humanas. Enfrentaram padres e reis; sem medo, discutiram com Deus. Essa marca, feita pela primeira vez por Abrahão, nunca perdeu sua força. Sua expressão mais poderosa se encontra em Jó, com certeza o livro mais contestatório a fazer parte de um cânone de escrituras sagradas. Seu eco é ouvido, e ouvido outra vez através dos tempos no Midrash rabínico, nas kinót (lamentos) da Idade Média, nos contos chassídicos e na literatura do Holocausto. No judaísmo, fé não é aceitação. É protesto contra o mundo tal qual é em nome do mundo como ainda não é, mas deveria ser. A fé não reside na resposta, mas na pergunta - e quanto maior o ser humano, mas eloqüente sua pergunta. A Bíblia não é ópio metafísico, mas precisamente o oposto. Seu propósito não é transportar aquele que crê a um paraíso particular. É, isto sim, o desejo apaixonado, contínuo, de trazer o paraíso até a terra. Até conseguirmos, ainda há trabalho a fazer.

Algumas culturas isentam o ser humano da responsabilidade, levando-nos para longe do mundo de dor rumo a um estado de beatitude, êxtase, enlevo. Elas nos ensinam a aceitar o mundo como é e a aceitar a nós mesmos do modo que somos. Promovem paz de espírito, o que não é pouca coisa. Judaísmo não é paz de espírito. “Os justos não têm descanso, não neste mundo nem no próximo”, diz o Talmud. Eu continuo admirado diante do desafio que Deus nos deu: o de sermos diferentes, iconoclastas do politicamente correto, de personificarmos o ponto de interrogação assinalado por Ele diante da sabedoria convencional vigente, de construirmos, transformarmos, consertarmos o mundo até que ele se torne um lugar digno da Presença Divina - tudo porque nós aprendemos a honrar a imagem de Deus que é a humanidade.

Acreditar na Bíblia requer coragem. Não é para os fracos de coração. Sua visão do universo em nada é reconfortante. Podemos ser livres, podemos ser afluentes, mas em Pêssach comemos o pão da aflição e sentimos o gosto amargo das ervas da escravidão. Em Sucot, nós nos sentamos em barracos e aprendemos o que é não ter um lar. No Shabat, vivemos na prática nosso protesto contra uma sociedade movida pela produção e consumo incessantes. Todos os dias, falamos em nossas preces de Deus “que proporciona justiça aos oprimidos, e dá alimento aos famintos… liberta os agrilhoados… abre os olhos dos cegos e reergue os caídos… protege os peregrinos; ao órfão e à viúva Ele reanima…” (Salmos 146:7-9). Imitar Deus é estar alerta à pobreza, ao sofrimento e à solidão do próximo. O ópio elimina a sensibilidade à dor. A Bíblia nos faz senti-la.
É impossível se comover com os profetas e não ter consciência social. A mensagem que transmitem em nome de Deus é uma: O mundo não vai melhorar sozinho. E não se tornará um lugar mais humano se delegarmos a outros - políticos, articulistas, apologistas profissionais - a tarefa nossa de trazer a redenção. A Bíblia hebraica não começa com o apelo do homem a Deus, mas com Deus nos chamando, a cada um de nós, exatamente aqui onde estamos. “Porque, se de todo te calares agora”, diz Mordechai a Ester, “de outra parte se levantarão para os judeus socorro e livramento… quem sabe se não foi para este momento que chegaste ao reinado?” (Ester 4.14) Esta é a pergunta que Deus nos faz. A resposta é sim. Se não fizermos o que nos cabe, talvez outros façam. Mas não teremos, então, compreendido por que estamos aqui e o que somos intimados a fazer. A Bíblia é o chamado de Deus à responsabilidade humana.

(Rabino Jonathan Sacks, Para Curar um Mundo Fraturado - A ética da responsabilidade, Editora e Livraria Sêfer, São Paulo. Pág. 42-43)