quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O ESPÍRITO DA PERIFERIA


Por Kalil Bentes.

Sou um morador da periferia de São Paulo. Há 6 anos convivo mais de perto com a realidade deste povo – vivi a infância em um bairro que se elitizou – sem deixar de ter contato com pessoas de classe média e alta, por amizades ou negócios. Morar na periferia da Zona Sul de Sampa tem me feito enxergar algumas coisas, e ter impressões que tenho compartilhado com colegas educadores, músicos e com colegas com outras tantas ocupações, e que quero compartilhar aqui, neste espaço aberto.

Uma das coisas que são gritantes ao andarmos pelo nosso bairro é o descaso do governo; entra gestor, sai gestor, e os córregos continuam a céu aberto, as escolas continuam depredadas pela falta de investimento em segurança e infra-estrutura, impedindo que o mestre se sinta à vontade para provocar a inteligência de nossos jovens, que por sua vez não se sentem desafiados a buscarem sua consciência; há superlotação nas creches, falta de vagas , deixando em difícil situação as famílias que precisam do dinheiro do trabalho do pai e da mãe para no mínimo sobreviver numa São Paulo cada vez menos solidária; os jovens são pegos pelo ócio, que os incita a se voltar contra as leis em busca de afirmação (apesar de não ser determinista, reconheço a ação do meio no livre-arbítrio de cada um) e adrenalina em vandalismos e criminalidade – sem contar com o total desprezo pela ordem, e a busca por entretenimento de uma forma cada vez mais vulgar e degradante, expresso nas letras de funk (sic) e suas danças (como músico, me recuso a identificar esta manifestação como música, muito menos como arte e, piorou, com aquilo que a Motown produziu nos idos anos 60 e 70! Stevie Wonder nos abençoe!!!).

Esta é a cultura dominante na periferia, resumindo: beber, cheirar, fumar, transar, invadir o espaço alheio fisicamente ou através do barulho, ver o futebol no domingo, etc... - em outras palavras, o “Espírito da Periferia”.

Quero agora recitar uma verdade universal: uma situação só pode ser compreendida por quem a enxerga de fora. Isto não quer dizer que eu deva morar nos bairros mais nobres da cidade para compreender este espírito – na verdade, alguns destes moradores são também “possessos” dele... – mas que minha mentalidade deva estar acima disto. Devo primeiro “retirar o cisco do meu olho para ver com clareza e aí retirar a trave do olho de meu irmão”.

O que então tem o poder de me retirar da mentalidade da periferia, de me livrar do determinismo e do destino e me dar asas para subir alto e de lá, com visão de águia fazer-me enxergar com clareza? Não é o quê, mas sim quem: JESUS CRISTO!!! – Isaías 40, 31.

Aí, você pode com razão me perguntar: “O que a religião tem a ver com isto, bitcho?!?!?!” Nada, cara!!! Eu já me frustrei com religiões, mano! A saída que eu indico é uma pessoa: o Filho de Deus e Filho do Homem; O Carpinteiro, Filho do Oleiro.

Aquele que dividiu a história e começou a instalar Seu reino, não político, mas nos corações dos homens, a começar por 12 homens simples da Galiléia, e um devoto estudante da Tora, Saulo de Tarso, chamado de Paulo. A proposta de Jesus difere tanto daqueles que religiosamente se colocam em pé de igualdade com Ele, quanto daqueles que sonharam com uma sociedade mais justa, igual, respeitosa e livre.

Então você novamente me interrompe e me diz: “Mas qualékié deste Jesus, que tem um monte de igrejas na periferia, as quais não tem, em geral, relevância social?!?!?!” Calma, brother, tô chegando lá!

Jesus deixou bem claro diversas vezes nos evangelhos que Seu reino não é deste mundo; Ele não queria ser aclamado rei de Israel, nem começar uma revolta ao lado da E.R.Z. (esquerda revolucionária zelote) contra a tirania do Império Romano, mas sim, reinar na vida, nos corações daqueles que o seguissem. Conferindo em João18, 36:

“...O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus,; mas agora, o meu reino não é daqui.” .

Lendo assim, dá até a impressão de que Jesus propunha que a gente se aliene da vida para aguardar uma vida após a morte; lendo só isto, fora do contexto bíblico, podemos até “forçar essa barra” para entendermos assim. Mas a boa vontade, aliada a curiosidade e a dúvida, nos revelam que o reino ao qual Jesus se refere é o coração das pessoas; estas passam a fazer parte da Igreja, não importando em qual igreja esteja, mediante a fé nEle. Este coração transformado por Deus buscará não uma benção de dEle a cada domingo, mas abençoar o meio onde vive através... DO AMOR!

Posso colocar mais um pensamento pertinente? Aí você me responde: “Tem jeito???” ... lá vai:

“A democracia requer que os cidadãos possuam qualidades que ela não tem como lhes fornecer. Os políticos podem criar visões elevadas de uma sociedade próspera, saudável e livre, mas nenhum governo é capaz de fornecer as qualidades de honestidade, compaixão e responsabilidade que precisam estar por trás desta visão.” – Jürgen Habernas

Entendeu? Se eu sugiro uma mudança no modo de viver do meu bairro, dos meus vizinhos, preciso lhes fornecer um meio de levar a cabo tais ideais: e isto vem pelo novo coração que Cristo concede àqueles que aceitam Sua vida neles. Isto o Novo Testamento chama de “dar bons frutos”.

Mas, e o que dizer do contrário? Daqueles que fundam ou frequentam igrejas na periferia, e vivem como se tudo à sua volta fosse culpa do diabo, e que Deus quer somente suas almas? Deixo para outra oportunidade, mas o que acabo de escrever dá para nos levar à reflexão, né chapa?!?!?!

Jesus não é uma idéia criada por judeus místicos; não é uma filosofia que hipocritamente possa ser inserida em outra com propostas contrárias – só uma pode ser verdade; não é uma religião que exige freqüência no templo, visitas à uma cidade santa, recitar credos e rezas; Jesus é uma pessoa, que morreu, e ressuscitou por vencer a morte; está vivo, e age através da Igreja.

Deu para sacar um bocado? – “Sei lá, Kalil... me deu até sede!” – Então vamos tomar sorvete!!! E o papo vai continuar... quem sabe a gente não consegue exorcizar aos poucos o espírito da periferia? – “É com jejum e oração???” – Não, basta trazer uma lanterna, e as trevas começam a se dissipar, mano! Minha lanterna com a tua, e mais as dos outro que se juntarem à “causa”, erradicarão estas sombras e trevas!!! – “Legal, então vamos comprar pilhas recarregáveis, para não gastar tanta grana, brou...!” – É, é um começo...

“Mas não foi assim que aprendestes a Cristo, se é de fato que o tendes ouvido, e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus, no sentido que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade.”
– Efésios 4, 20-24

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

GUITAR PHOTO






Estas são fotos de uma apresentação da banda ToTheLamb, da qual eu era integrante. Show no Parque Ecológico do Tietê em Dezembro de 2008.


Um abraço aos meus amigos que ficaram Lucky Santana, Samuka Drum, Silas Gulliver e Nickson.


Keep Rockin' For Him!!!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

INTERNACIONALIZAÇÃO DA AMAZÔNIA - CRISTOVAM BUARQUE


Até hoje eu vibro ao ler este texto, que é um ato heróico de um patriota; não só patriota, mas cidadão do mundo. Cristovam Buarque falou por nós, e nos honrou. Obrigado, cavalheiro!!!

INTERNACIONALIZAÇÃO DA AMAZONIA
O Mundo Para Todos
CRISTOVAM BUARQUE


Durante debate recente, nos Estados Unidos, fui questionado sobre o que pensava da Internacionalização da Amazônia. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para uma resposta minha.

De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Respondi que, como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, podia imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade. Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é quardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um pais. Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

Durante o encontro em que recebi a pergunta, as Nações Unidas reuniam o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu disse que Nova York, como sede das Nações Unidas, deveria ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza especifica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o pais onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver.

Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa.



CRISTOVAM BUARQUE é professor da UNB, autor do livro "A cortina de ouro"

O PODER DE TRANSFORMAÇÃO DA LEITURA


Este texto é antigo, de 2006. É a minha redação do ENEM daquele ano. Resolvi colocá-lo por ter me rendido 92 pontos naquela avaliação. Eu gosto dele por tratar do diálogo, e contém minhas sugestões para o debate de idéias.
Por Kalil Bentes.

Ler traz à conhecimento coisas que eram veladas; ou à luz temas tidos por obscuros. Traz também facilidade de compreensão aos assuntos que tínhamos somente em mente quando os escrevemos, e nos colocamos à lê-los, submetendo-os assim ao nosso próprio julgamento.

A leitura é o melhor jeito de se aprender algo inicialmente contrário ao que pensamos, pois, ao contrário de um debate falado, não perdemos palavras importantes com o som inconveniente de nossa própria voz; lemos uma sentença inteira e a analisamos antes de lançar nosso argumento contrário, ou uma concordância precipitada.

O hábito constante da leitura tem o poder de, ao mesmo tempo em que o corpo descansa de suas atividades, levar-nos a viver situações, entrarmos em consonância com eventos e pensamentos que nos cercam, e até mesmo a conspirarmos sobre qual seria a melhor opção para a cena de dois parágrafos à frente; nestes momentos um ser humano acostumado a derrubar muros pode optar por qual peso de marreta seria mais adequada ao seu labor.

Temo pelo rumo que minha geração dará às nossas vidas. Temo pelo futuro de um lugar onde as pessoas não costumam mais parar para ler – ler é “baixar a guarda” – poesias onde são colocadas frente à frente com o mais profundo do sentimento humano; críticas de arte, levando em conta assim a opinião de genuínos artistas a respeito de modismos modernos que nada acrescentam, e endurecem a cerviz das pessoas em relação às outras; ensinos que levam à reflexão política, social, profissional, humana e espiritual, não oferecendo apenas auto-ajuda baseada no mais puro e simples “achismo”.

Novamente digo que, ao ler, nos tornamos mais receptivos ao posicionamento do próximo, mais sensíveis às suas necessidades, e mais aptos às tarefas que nos são delegadas.

Uma nação melhor talvez comece por um povo que “se transforme pela renovação de seu entendimento”; a leitura é a chave dessa renovação.

Kalil Bentes